TRINETO

Aélio e a alegria da paternidade multiplicada por quatro

Aélio Monteiro, de 84 anos, celebra a vida do homônimo Trineto, de dez meses, como uma forma de renovação. O professor agora desfruta a alegria de ter quatro gerações de si por perto

Tatiana Fortes/ O POVO
Aélio, Assis, Disleny Flor, Jorrames e o pequeno Aélio (o trisneto) formam a sequência de quatro gerações da família Monteiro

Dizem por aí que avô é pai duas vezes. Se essa for a lógica, o professor Aélio Monteiro, 84 anos, tem a paternidade multiplicada por quatro, desde que o mais novo membro da família nasceu, não por acaso, com o nome dele. O pequeno Aélio tem só dez meses e é trineto do primeiro. Foi esperado e comemorado pelo trisavô como forma de ver-se alongado pela vida. “Nunca vi isso acontecer antes. Eu nunca conheci alguém que fosse trisavô. Por isso eu fiz até campanha”, brinca.

A trajetória que liga os dois, assim como as histórias da vida, são rodeadas de desventuras do acaso. Mas comecemos do princípio. Era 1952 quando Aélio (o primeiro) engravidou, por descuido, a mãe de Assis da Silva, seu segundo filho. Ele era um adolescente de 17 anos, saído de Quixadá para tentar os estudos na Capital e por aqui se aventurou. O filho Assis nasceu em Fortaleza, mas fez o caminho de volta ao Sertão Central com a mãe ainda bebê.

O reencontro só ocorreu 22 anos depois, quando o filho voltou para a Capital em busca do pai desencontrado. Aélio já havia feito vida, casado e tido outros rebentos. “Eu tava dando aula quando apareceu aquele homem alto dizendo que era meu filho. Foi aí que a gente se reaproximou, virou amigo”, relembra Aélio.

Os laços se refizeram à medida que Assis também foi encaminhando a própria vida. O menino ganhou profissão, casou e teve quatro filhos, entre eles Disleny Flor, hoje 35 anos. Foi essa neta de Aélio que, aos 13, surpreendeu-se grávida do menino Jorrames, hoje com 22.

Mal sabia o bisavô que este, já homem feito, haveria de entrar em relacionamento de anel no dedo e casa divida com a namorada. Foi então que começaram as investidas do experiente Aélio. “Toda vez que chegava aqui em casa, ele perguntava quando é que a gente ia ter um filho”, recorda Jorrames. As brincadeiras continuaram até a namorada do jovem aparecer em vias de ter o filho. Aélio comemorou e começou nova campanha: batizar o menino com o próprio nome. Deu certo.

É um jeito de eu continuar no mundo. Eu sei que ele vai ficar aqui e carregar meu nome por muito tempo. É uma vaidadezinha que todo mundo tem"

Aélio Monteiro, 84, trisavô
“Antes mesmo do menino nascer, a gente já tinha combinado”, orgulha-se o trisavô. Para ele, o menino refez os sorrisos que o tempo, vez ou outra, teima em se demorar a trazer. Os quereres se ampliam com a criança perto. A foto na carteira é sinônimo de amor. Aélio se viu avô multiplicado, com todas as vantagens que isso inspira.

“Ser avô é bom demais. Quando se é pai, você quer bem o menino, mas tem muitas responsabilidades. Como avô, você só basta querer bem”, teoriza, enquanto denga. Um Aélio se encontra no outro, se renova. Como se o menino fosse a prova de que a vida se estica até onde os olhos alcançam e o corpo insiste em não chegar. “É um jeito de eu continuar no mundo. Eu sei que ele vai ficar aqui e carregar meu nome por muito tempo”, amplia-se. E se justifica: “É uma vaidadezinha que todo mundo tem”. Foi esse o presente de um pai que virou trisavô. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)