PRECONCEITO

Até quando o futebol deve conviver com casos de racismo e homofobia?

Casos de discriminação têm apagado o brilho do esporte mais popular do País. Punições a agressores ainda são discretas

Julio Caesar - O Povo
Atacante Élton, do Ceará, reclama à arbitragem após suposta fala racista do zagueiro Victor Cuesta, do Internacional

O futebol da alegria dos gols, dos dribles desconcertantes e da vibração das torcidas, por vezes, é manchado por atos de uma sociedade com hábitos ultrapassados refletidos dentro dos estádios. Denúncias de racismo e de homofobia têm se tornado cada vez mais frequentes no ambiente esportivo, em total contraste com as modernas arenas mundo afora. Ao mesmo tempo, as punições vão em caminho contrário. O último levantamento disponível, da ONG Observatório da Discriminação Racial no Futebol, de 2015, aponta que, de 35 “supostos casos de racismo”, em apenas um houve punição na Justiça Desportiva. Em outros dois casos, o agressor foi preso, identificado e liberado pela Polícia após pagamento de fiança.

O tema racismo no futebol veio à tona mais uma vez com o suposto caso recente envolvendo o jogador Élton, do Ceará, que acusa o argentino Victor Cuesta, do Internacional-RS, de tê-lo chamado de macaco e ainda se referido ao atleta Cafu, também do Ceará, de “preto de merda”, durante partida realizada no Castelão, em Fortaleza, na última terça-feira.

O zagueiro do Inter negou as acusações em pronunciamento de 58 segundos, sem responder às perguntas dos jornalistas.

O levantamento da ONG tem como objetivo desmistificar que os episódios de racismo “não dão em nada”. No comparativo com 2014, o ano de 2015 apresentou um aumento de 85% nas denúncias de racismo, enquanto as punições caíram.

Na última análise do Observatório, foram constatados 37 casos discriminatórios relacionados ao futebol, sendo 35 atrelados à discriminação racial, um à homofobia e outro à xenofobia. Destas ocorrências, 24 aconteceram dentro dos estádios e 11 por meio da internet. O estado com o maior número de incidentes, com nove casos, foi o Rio Grande do Sul. O Ceará não apareceu nesta lista.

Para o pró-reitor de Relações Institucionais da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Edson Borges, o racismo registrado nos estádios é um reflexo da sociedade brasileira. Ele argumenta que não se pode analisar o futebol como algo à parte do meio social.

Conforme Borges, todas as questões problemáticas de desigualdade, de gênero e raça estão dentro do ambiente esportivo.

“Não se pode tirar o futebol da sociedade. É muito comum encontrar no meio social brasileiro piadas com negros, músicas de Carnaval... E dançamos e rimos. O futebol é tratado como se fosse uma área livre onde se pode falar tudo, ofender. Mas não é só na partida de futebol: as pessoas fazem isso no dia a dia, naturalizaram”, comenta.

Ele cita que, com as redes sociais, os atos racistas se tornaram mais visíveis, mas é algo que sempre esteve presente na sociedade.

“É interessante verificar que o Brasil não está tão distante do que acontece na Europa e em outras partes do mundo, com os estigmas das populações indígenas, de negros e gays. As pessoas riem, não têm percepção do que estão fazendo. Temos o hábito de tratar o outro diferente quase como forma de subjugação”, afirma Edson Borges.

Pode tudo?

A ideia de que no futebol “pode tudo” é o reflexo de uma sociedade onde a impunidade e o descrédito com a Justiça são enraizados, defende Diego Morais, pesquisador e professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC).


“Se há atos violentos, discriminatórios ou preconceituosos no futebol, esses mesmos atos não passam despercebidos na sociedade, no dia a dia. Acredito que são reforçados no futebol, não porque este seja um mundo à parte, mas porque é um mundo onde masculinidade e virilidade são interpretadas de modo positivo. Não é à toa que os principais xingamentos e cânticos de algumas torcidas mais tradicionais tentam atingir justamente a sexualidade do outro”. Para Diego Morais, o ‘futebol-espetáculo’ é segregador. (O Povo - é parcxeiro de oxereta.com)


Leia artigo da pesquisadora Geísa Mattos sobre racismo em:  bit.ly/racismoreaparece


Casos de racismo


Daniel Alves Em 2014, o lateral Daniel Alves foi alvo de racismo durante uma partida entre Barcelona e Villareal. Torcedores arremessaram uma banana na direção dele, e o jogador respondeu ao insulto racista comendo a fruta.

Roberto Carlos

Em 2011, quando atuava no futebol russo, o ex-lateral não teve a mesma reação de Daniel Alves. Roberto Carlos abandonou a partida entre Anzhi e Krylya Sovetov após torcedores jogarem uma banana das arquibancadas.

Neymar

Em 2016, o craque brasileiro foi alvo de racismo na Espanha. Os insultos racistas contra Neymar ocorreram na partida entre Barcelona e Espanyol. O atacante já havia sido alvo de torcedores da mesma equipe em 2014.

Aranha

Entre 2014 e 2015, o goleiro Aranha sofreu com atos racistas de torcedores. Atuando pelo Santos, foi discriminado na Arena Grêmio e nas redes sociais. Uma torcedora foi flagrada por câmeras de TV gritando ”macaco”.

Tinga

Em 2014, o ex-jogador Tinga foi duramente hostilizado pela torcida do Real Garcilaso, do Peru, quando atuava pelo Cruzeiro, em partida válida pela Libertadores. Torcedores imitaram sons de macaco.

Grafite

Em 2005, Grafite, na época no São Paulo, acusou o zagueiro argentino Leandro Desábato, então no Quilmes, de racismo em partida da Libertadores. O defensor recebeu voz de prisão ainda no gramado.


SAIBA MAIS


A InvestIgação do caso envolvendo Élton e Victor Cuesta será iniciada nesta semana, segundo o delegado Wilder Brito Sobreira, titular do 16º Distrito Policial (DP). O atacante do Ceará registrou um Boletim de Ocorrência (BO) por injúria racial contra o argentino no último dia 13. Em depoimento, o atacante do Ceará afirmou que o zagueiro do Internacional o teria chamado de macaco por duas vezes e se referido a Cafu, também do clube cearense, de “preto de merda”. O suposto caso de racismo teria ocorrido durante a partida entre os dois times, na última terça, 11, no Castelão.