MÚSICA

Bumbum protagonista

Controverso símbolo nacional, a bunda está em alta na música pop brasileira - e praticamente onipresente entre os lançamentos do Carnaval

O Povo
Bumbum protagonista

Nome de referência na pesquisa sobre a formação do povo brasileiro, o sociólogo Gilberto Freyre (1900 – 1987) apontou: “Os ritmos de andar da miscigenada brasileira chegam a ser musicais, na sua dependência de bundas moderadamente ondulantes”. Autor de Casa Grande e Senzala (1933), o estudioso interpretou o País analisando nosso caldeirão de heranças africanas, indígenas e europeias. Segundo ele, nesse contexto de mistura, o povo ibérico, com genes árabes, apresentava certa “vantagem” nesse quesito corporal se comparado a outros europeus.

Corta para 2018. O Carnaval se aproxima e os artistas nacionais se apressam para lançar suas apostas para a folia.

De Anitta a Wesley Safadão, passando pelos funkeiros e as artistas drags, esse tema tem dominado. Não que isso seja novidade na música brasileira. Os sucessos do É o Tchan nos anos 1990 estão aí para provar que essa popularidade é antiga. Agora, porém, o bumbum tem protagonismo mais claro, saindo do campo da insinuação e indo parar nos os títulos das músicas, nos refrões. O POVO fez levantamento de músicas que despontam como apostas para o Carnaval e, de fato, a bunda está em alta (ver página ao lado).

Funk com maior número de visualizações da história do YouTube, o hit grudento Bumbum Tam Tam (que soma mais de 618 milhões de views) coroou esse momento em que essa parte do corpo associada à malemolência aparece em primeiro plano. Entre os hits espontâneos de carnavais passados, a bunda já aparecia sugestionada. Rebolation, do Parangolé convidava ao balanço, Mulher Brasileira (Toda boa), do Psirico, apostava num eufemismo do “corpo de violão”. Assim como Explosão, do Tchakabum, canta “como uma cobra, rebola, rebola corpo de mola”. Em 2018, porém, o assunto está mais explícito.

Para a cantora potiguar Kaya Conky (que ano passado despontou com E aí, bebê), o tema anima diferentes públicos.

Tanto que a aposta dela para a folia deste ano é Bumbum Tremendo. “Dançar é muito bom, né? E acredito que quando se fala em dança, um dos elementos que mais trabalha nessa hora e é mais lembrado, com certeza é a bunda”, argumenta.

Para a artista, as palavras ganham mais força do que eufemismos. “Acho que não tem como esses assuntos saírem do hype tão cedo. Até a sonoridade das palavras ‘bunda’ e ‘bumbum’ são propícias pras músicas”, defende.

O escritor e roteirista paulista Renzo Mora fez extensa pesquisa sobre o tema para o episódio A bunda, lançado pelo programa Cultura pop brasileira, da Warner. Para o pesquisador, há uma via de mão dupla que justifica a permanência desse símbolo associado à sensualidade na música. “O fascínio pela bunda vem do fato de nádegas fartas indicarem fertilidade. A nossa cultura de massa é que corre atrás do fato de sermos obcecados por bundas - e não o contrário. Aliás, não só a cultura de massa. A cultura erudita também”, afirma, citando o poema A bunda, que engraçada, de Carlos Drummond de Andrade.

Para ele, “a música não estimula nosso foco na bunda” e, entre mulheres e homens, esse interesse permaneceria “mesmo se ouvíssemos somente música clássica”, brinca. “O Carnaval é apenas um pretexto. Evoluímos como civilização falando disso. Em mil anos continuaremos a falar do mesmo assunto”, analisa. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)