ANÁLISE

O Brasil que o aniversário da pequena Rinah revela

O Povo
O Brasil que o aniversário da pequena Rinah revela

A imagem de uma criança chorando durante sua primeira festa de aniversário emocionou o Brasil. Trata-se de Rinah Laís, moradora da cidade de Macapá, capital do Amapá. A comemoração foi organizada e registrada pela prima Thaís Monteiro, que não imaginava o tamanho da repercussão que a postagem no Facebook teria.

Depois de o assunto aparecer pela primeira vez no portal O POVO Online, o caso foi parar nos principais veículos de comunicação do País, levantando a discussão sobre como devemos dar valor às coisas simples da vida.

Entretanto, esse fato pode nos levar a reflexões mais profundas, principalmente sobre o abismo social que separa ricos e pobres no nosso País. Somente após sete anos de seu nascimento que a pequena Rinah pôde ter a experiência de uma festa de aniversário. E não se pode dizer que foi por falta de vontade dos pais ou algo parecido.

Quando se está em condições precárias de sobrevivência, qualquer evento do tipo vira luxo. Há outras prioridades a serem elencadas pela família, como alimentação diária, conta de luz, água. Quem precisa se virar com um salário mínimo ou renda do Bolsa Família acaba tendo que operar verdadeiros milagres para dar conta de todas as despesas do mês.

Nos próximos dias, muito provavelmente Rinah deverá aparecer em programas de televisão, receber presentes de Lucianos Hucks e Rodrigos Faros da vida, ter sua história explorada em busca de audiência. O Brasil que tudo tem enxergará, mais uma vez, esse Brasil que se sustenta com migalhas, mas depois voltará para sua acomodação cotidiana. Um sentimento de culpa poderá incomodar alguns. Outros prestarão algum de tipo de ajuda como medida compensatória, mas o fato é que as estruturas que mantêm nossa deplorável desigualdade social continuarão as mesmas.

Quem acumula seus milhões ou bilhões continuará achando que não tem nada a ver com as tragédias que o País registra a toda a hora, mesmo tendo de andar em carros blindados, precisando se encastelar cada vez mais em sua residências e gastar rios de dinheiro com segurança particular.

Nossa elites precisam urgentemente se conscientizar de que nada vai melhorar enquanto a lógica de distribuição de renda não for alterada. Nossas riquezas precisam ser democratizadas de modo a desenvolver regiões esquecidas e, infelizmente, hoje dominadas pelo crime organizado. Ou isso acontece ou continuaremos a lamentar situações como a de Rinah. E pior: se chocar com novas chacinas, latrocínios e outros crimes do tipo. Podem lotar morros e favelas com soldados do Exército e policiais. Permaneceremos a enxugar gelo.

Daí vem a necessidade de se debater com seriedade a taxação de grandes fortunas, uma reforma tributária, e outras medidas que transformem nosso modelo econômico. "Ah, mas o Brasil é corrupto, vão desviar a verba etc". É possível. Por isso também a importância de a sociedade acompanhar de perto o uso dos recursos públicos, exigir transparência, enfim, sair do comodismo. Mas se mesmo assim você, grande empresário, não confia no Estado, é possível agir por outros caminhos: parcerias para o desenvolvimento de projetos sustentáveis nas áreas mais miseráveis das cidades, por exemplo.

Mas precisamos criar alternativas de renda para quem hoje não possui opções a não ser as quadrilhas cada vez mais fortes e organizadas. É com essa estratégia que se pode vencer a batalha contra a violência e, de fato, fazer o País progredir. Mudemos o destino não só de Rinha, mas de outros milhões de meninos e meninas desse País injusto e cruel, mas que tem todas as condições de se tornar maravilhoso. (Ìtalo Coriolano - O Povo - parceiro de oxereta.com)