CONSCIENTIZAÇÃO

Projeto utiliza grafite e plantio de mudas para impedir pontos de lixo

Alunos da Escola Luís Recamonde Capelo, antes conhecida como "Escola do Lixão", participaram de oficina de grafite

Arthur Luz
Estudantes aprenderam a lidar com as tintas e ajudaram na mudança visual dos muros da escola, localizada no Bonsucesso

Pintar muros é deixar marcas de si mesmo. Demonstra uma necessidade de expressão que precisa transbordar. Pode ainda ser ferramenta para reivindicar, agregar e mobilizar comunidades no intuito de mudar realidades locais. Nessa perspectiva, o grafite está sendo utilizado como ferramenta para transformar lugares degradados e impedir a perpetuação de pontos de lixo. Durante o dia de ontem, 16 alunos da escola Escola Municipal Professor Luís Recamonde Capelo, no bairro Bonsucesso, participaram de oficinas e puseram cores nos muros que os cercam cotidianamente. Essa é a 11ª intervenção do projeto Urbano Arte, que começou em dezembro de 2017. Ao final, serão 33 espaços —entre escolas, praças, esquinas e passeios — revitalizados por meio da participação de 33 artistas. O objetivo da iniciativa é educar a população para acabar com pontos de lixo e evitar que voltem a ser locais de descarte irregular. A ação é parte do programa Ecocidadão, patrocinado pelo Grupo Marquise, Ecofor Ambiental e Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, com apoio da Prefeitura de Fortaleza, através da Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma). Além disso, contou com o apoio do Porto Iracema das Artes, ligado ao Governo do Estado.

Pinturas, estêncil e paisagismo fazem parte das técnicas escolhidas pelos artistas participantes. A ação, além do grafite, conta com plantio e mudas.

“Quem nunca escreveu seu nome num cimento molhado desejando que ele permanecesse?”, questiona Ramon Sales, artista responsável pela intervenção na escola. Ele explica que, antes da execução do projeto, é preciso entender as necessidades da comunidade.

“Nos pontos de execução, eu faço visitas antes para entender o que as pessoas gostariam de ter naquele espaço se não fosse ponto de lixo”, explica. “Na medida do possível, tentamos fazer algo que faça uma diferença positiva na vida deles, perpetuar um movimento de construção em comunidade. A gente tenta enquanto um agente que inicia uma ação e tenta fazer com que a comunidade continue aquilo”, destaca Ramon.

De acordo com o artista, a oficina visa dar uma noção de como os alunos podem mexer nas tintas, “desmistificar o que é a tinta”, ressaltando que a importância vai além da estética.

“Eu sempre bato na tecla do erro, porque é impossível que um aluno sem formação de desenho e artes consiga fazer uma composição visual considerada belíssima. Até porque não é o meu interesse. Meu interesse não é estético, não é a beleza. É fazer com que as pessoas ocupem o lugar. A beleza é uma consequência. Quero que elas se sintam bem com a ocupação da Cidade”, enfatiza.

A vontade de se fazer, por meio do grafite, mais parte daquele lugar e se expressar, foi o que motivou Rafaele Braga, 16, a participar da atividade.

“Sempre tenho ideias, mas geralmente nunca dá certo. Eu gosto de arte, mas não sou muito boa, na minha concepção. Eu gosto de participar de projetos na escola, na comunidade. Vejo isso como uma oportunidade para eu finalmente me expressar. Colocar uma coisa que eu gosto no muro. Algo que fale com as pessoas”, explica a aluna.

Meu interesse não é estético, não é a beleza. É fazer com que as pessoas ocupem o lugar"

Ramon Sales - Artista


Para Rafaele, o grafite vai ser uma oportunidade de se sentir mais parte da escola, de que fez parte da mudança nos muros. “O professores chegaram anunciado e perguntaram quem queria participar. Eu nem estava no dia, meus colegas colocaram meu nome porque sabem que eu gosto de participar dessas atividades, eu curto”, conta.

Edivânia Romeu, diretora da escola, explica que a atividade é parte de um processo de mudança na unidade, conhecida como “Escola do Lixão”.

“Começamos ações junto com os jovens, com a comunidade e com a Prefeitura para recolher. Mas retirava e as pessoas botavam de novo no outro dia. Não era um problema só de lixo. A gente foi procurar ajuda e tomou conhecimento desse projeto”, lembra.

A participação, segundo ela, é um importante fator no processo de mudança do espaço. “A gente acredita que o aluno como protagonista desse momento, como autor, aumenta o zelo pelo patrimônio e a própria autoestima, se expressando. Já não temos mais o lixão, agora vamos ocupar de forma positiva o espaço”.  (O Povo - é pareiro de oxereta.com)