XAVANTE

A Suspeita. Assento ejetável era "deficiente", aponta Cenipa

Equipamento falhou em acidente com caça na Bahia. Segundo investigadores, outras aeronaves da FAB também apresentavam esse problema. Avião que caiu no Ceará usava assento do mesmo modelo

Reprodução
A Suspeita. Assento ejetável era "deficiente", aponta Cenipa

Uma falha no assento ejetável pode ter contribuído para a morte do tenente Alexandro Prado, piloto do xavante que caiu no litoral cearense em julho de 2000. Um relatório reservado do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) revela que o equipamento instalado nos caças da Força Aérea Brasileira (FAB) apresentava “deficiência de projeto”. O órgão alerta ainda que a FAB descumpriu orientações da fabricante e modificou o procedimento de ejeção previsto no manual dos pilotos.

O Cenipa descobriu o problema quando investigava a queda de outro xavante, ocorrida em março de 2000 — quatro meses antes do desastre no Ceará. Após uma pane de motor, o copiloto do caça FAB 4517 ejetou e foi resgatado com vida no litoral de Salvador. Mas o instrutor da missão não conseguiu ativar o assento: o corpo dele foi encontrado submerso, ainda dentro do avião.

O caça que caiu na Bahia pertencia ao Esquadrão Pacau, sediado na Base Aérea de Fortaleza — o mesmo grupo de aviação do xavante FAB 4626, pilotado pelo tenente Alexandro Prado. As duas aeronaves acidentadas usavam assentos MK4, da empresa britânica Martin-Baker. A exemplo do que ocorreu em Salvador, o copiloto do 4626, tenente Ricardo Beviláqua, ejetou e foi resgatado com vida. Mas o piloto, que acionou o equipamento instantes depois, caiu no mar inconsciente e morreu.

Depois do acidente na Bahia, o Cenipa analisou outros xavantes da FAB e chegou a uma conclusão alarmante: é possível que a força necessária para a ejeção “estivesse acima do máximo previsto pelo fabricante”. Isso significa que os pilotos tinham que fazer muito mais esforço para conseguir acionar o mecanismo. Os investigadores descobriram ainda que a calibragem do equipamento não era checada nas inspeções periódicas. “Foram encontrados diversos assentos com tal problema” em outros caças.

O assento ejetável MK4 tem duas alças de ativação: uma principal (sobre a cabeça) e uma auxiliar (entre as pernas do piloto). De acordo com o Cenipa, a FAB alterou a recomendação da fabricante e estabeleceu uma nova conduta: os tripulantes “receberam instrução para acionar o punho alternativo como primeira opção”.

Segundo os investigadores, a orientação da FAB estava “em desacordo com o previsto na ordem técnica do fabricante do assento ejetável e com o manual de voo da aeronave”. Ainda assim, a “modificação do procedimento” foi incluída no “MaBo”, o manual de bolso com medidas de emergência que os pilotos levam na perna do macacão.

O Cenipa concluiu ainda que a “instrução deficiente” foi agravada por uma “deficiência de projeto”: se o piloto tentasse puxar a alça inferior do assento, a superior era desativada automaticamente, “sendo que não existe nenhum aviso ou advertência sobre esta possibilidade nas ordens técnicas do fabricante”.

Os investigadores também identificaram uma deficiência no simulador de ejeção usado pelo Comando Aéreo de Treinamento (Catre), em Natal: o equipamento “nunca havia sido submetido a uma manutenção preventiva” e estava descalibrado. “A força necessária para se comandar a ejeção pelo punho alternativo no simulador era bem inferior à força encontrada nos assentos” de verdade. De acordo com o Cenipa, no caso do acidente de Salvador, isso “pode ter levado o instrutor a não ter aplicado a força necessária para a ejeção”.

SOBRE A SÉRIE DE REPORTAGEM

O POVO encerra hoje a segunda etapa da série sobre o acidente aéreo que matou o tenente da FAB, Alexandro Prado, no litoral do Ceará, em 2000. A primeira parte, na época do desastre aéreo, foi vencedora do Prêmio Esso regional daquele ano, o mais prestigiado do jornalismo brasileiro. Na fase atual, foram seis reportagens. A primeira, publicada em 20 de fevereiro, trouxe o resultado do julgamento do caso quase 18 anos depois. As demais saíram nas edições de 2, 3, 9, e 10 de abril. A série montou as peças de um quebra-cabeça que envolve burocracia militar, problemas de manutenção nas aeronaves, risco para os pilotos, além da história completa da investigação que aponta a responsabilidade da União na morte do piloto. Tudo com base em documentos sigilosos do processo militar a que O POVO teve acesso.

PARA ACESSAR AS EDIÇÕES

20/2 – https://bit.ly/2BGTyso O JULGAMENTO. Depois de 18 anos, Justiça condenou a União a pagar indenização à viúva do piloto que morreu no acidente com um xavante no litoral cearense. A causa: falha de manutenção da aeronave da FAB, como O POVO antecipou na época do acidente. 2/4 – https://bit.ly/2IKIZ7L O ALERTA. FAB liberou xavante para voar sem inspeção obrigatória, conforme determinação do fabricante. Aeronáutica manteve avião até cair no Ceará com 114,12% de desgaste 3/4 – https://bit.ly/2EBu512 A FADIGA. Aeronáutica excedeu limite de vida útil dos xavantes. Relatório alertou para risco de trincas em 15 componentes da aeronave, mas deu aval para a utilização dos caças por mais tempo 9/4 – https://bit.ly/2GN7mFe A BUSCA. FAB encontrou, mas não resgatou asa do xavante. Equipes de busca localizaram destroços do avião horas após a queda no litoral, próximo ao Pecém. Asa partida em pleno voo poderia explicar as causas do acidente 10/4 – https://bit.ly/2ql2TiU A TRAGÉDIA. Piloto de caça pode ter quebrado pescoço na ejeção. Xavante entrou em parafuso após perder asa esquerda em pleno voo. Médico do esquadrão disse que giro em alta velocidade pode ter dificultado posicionamento ideal do piloto

DANTE ACCIOLY DE BRASÍLIA Especial para O POVO