ANIVERSÁRIO DE 292 ANOS DE FORTALEZA

"Lula livre" e repertório para cantar junto dão tom do show de Caetano na Praia de Iracema

Toques políticos e grandes sucessos da carreira marcaram o bonito e leve show de comemoração do aniversário de Fortaleza

Divulgação
Ao finalizar seu show no aterinho da Praia de Iracema, aos 10 minutos do 14 de abril, Caetano Veloso ergueu a mão direita e disse: "Marielle, presente! Lula livre"

No dia que então começava, faz um mês desde o assassinato ainda não esclarecido na vereadora carioca. Na pouco mais de uma hora e vinte minutos anteriores, o músico baiano fez show de aniversário de Fortaleza, em 13 de abril. O tom político atravessou a apresentação.

O encerramento foi a quarta menção a "Lula livre" por Caetano. Começou antes do show, com a plateia gritando instantes antes de o antigo compositor baiano subir ao palco. O animador que se preparava para chamá-lo pediu ao público para gritar e demonstrar empolgação enquanto a imagem do show era transmitida ao vivo pelo Facebook. Então, parte considerável da plateia começou a gritar "fora Temer". O brado gradualmente mudou e passou a ser entoado o pedido de liberdade do ex-presidente, preso desde 7 de abril. Na varanda de um apartamento em frente, a faixa: "Volta Lula".

Caetano fez menção ao petista pela primeira vez após Tigresa, quarta música da noite. O público começou a gritar. Ele deixou, escutou e, quando as manifestações diminuíram, ele completou: "Lula livre, fora Temer", para comemoração de parte significativa do público.

Ele voltou a repetir o mantra após o primeiro verso de Terra: "Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia". Então interrompeu e repetiu: "Lula livre". Uma terceira menção ocorreu depois da apresentação de Força Estranha.

Na área vip, estava o pré-candidato a presidente Ciro Gomes (PDT). O músico havia declarado voto no pedetista em post no Instagram na última segunda-feira, 9, quatro dias depois de ter sido anunciado atração principal da festa promovida pelo prefeito Roberto Cláudio (PDT), aliado do ex-ministro. Ao longo do ano passado, em pelo menos duas oportunidades Ciro declarou voto em Caetano.

O show

A apresentação foi diferente da que havia sido inicialmente anunciada. Originalmente, estava previsto o show de Caetano ao lado dos filhos Zeca, Moreno e Tom Veloso. Porém, a participação dos três foi cancelada - O POVO Online apurou que o motivo foi problema de saúde de Moreno.

Sem as companhias no espetáculo que tem levado pelo mundo - e que trouxe a Fortaleza em 11 de janeiro - o baiano fez um espetáculo diferente, de clássicas, para o público cantar junto. Pelas reações, a mudança de planos não foi mal recebida.

Caetano estava bem-humorado, leve, simpático - o que nem sempre ocorre em seus shows. Abriu com Luz do Sol e emendou Um Índio. Seguiu com Meu Bem, Meu Mal. Cantou Os Mutantes - Baby, com Diana incidental ("Oh, please stay by me, Diana").

Como futebol é uma presença constante e inevitável, ao cantar Tigresa, teve torcedor do Ceará se divertindo com o "E a tigresa possa mais do que o leão".

Na sequência da música, o artista deixou o público agitado com sua primeira referência pró-Lula e contra Temer.

Caetano Veloso canta Menino do Rio na Praia de Iracema:

A empolgação dos espectadores ficou ainda maior com Menino do Rio. "Assim fica bonito, vocês cantando", agradeceu divertindo-se com o calor da plateia. Continuou com Nosso Estranho Amor e a delicada Leãozinho.

Leia o especial Fortaleza 292 anos: uma cidade para amar

Cariri

Num dos momentos mais singelos, Caetano homenageou Violeta Arraes. Ressaltou a importância para o Brasil da cearense de Araripe. Irmã de Miguel Arraes, secretária da Cultura do Ceará no primeiro governo Tasso Jereissati (PSDB), ela foi, no exílio, uma das principais vozes a denunciar no Exterior os crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil.

O baiano improvisou. Disse que gostaria de cantar a música até o fim, que talvez não soubesse toda. Apresentou Meu Cariri, de Rosil Cavalcanti e Dilu Melo. "Lá no meu Cariri, quando a chuva não vem não fica mais ninguém”" entoou lindamente, acompanhado pelas palmas.

Após prosseguir por parte considerável da canção, desculpou-se por não completá-la e diz que gostaria de conseguir ir até o fim. "É tão bonita", encantou-se, enquanto tentava, com ajuda do público, recordar quem gravou pela primeira vez - lembraram a versão de Marinez, mas ele retrucou que havia uma anterior. Era de Ademilde Fonseca.

Na sequência, algumas das que mais tocaram em rádio: Você é Linda e Qualquer Coisa. Prosseguiu com Terra e a poderosa Gente (foi aplaudido sobretudo no trecho: "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome"). Então, Cajuína.
No aniversário de Fortaleza, Sampa não deixa de ter certo toque de desaforo saborosamente recebido. Homenagem tão bonita a uma cidade que é como se celebrasse todas.

Foi marcante ver o público cantar junto É Proibido Proibir. "Essa canção faz 50 anos", recordou. A primeira apresentação foi em 15 de setembro de 1968, no terceiro Festival Internacional da Canção. Diferentemente da apoteose desta sexta-feira, a música foi recebida com vaias enfurecidas. Caetano discutiu com o público e fez discurso que ficou marcado.

"Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado. São a mesma juventude e vão sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem".

O show prosseguiu com Desde que o Samba é Samba. Reconvexo foi mais um grande momento, com direito a manifestação do público no "quem não rezou a novena de dona Canô". Em Força Estranha, ele enfatizou o "no ar", inclusão feita a pedido de Roberto Carlos, que inspirou a canção ("Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista. O tempo não pára e, no entanto, ele nunca envelhece"), mas se incomodava com o "estranha". Incluir "força estranha no ar" foi jeito de essa carga negativa ficar "para fora" e não ficar com ele.

A seguir veio Sozinho, de Peninha. E saiu do palco com A Luz de Tieta. Para quem conhece a gravação ao vivo com a Timbalada, foi divertido ver de perto a plateia cantar "Eta, eta, eta" fora de tempo - alguns certamente de propósito. No bis, Odara, Lua de São José para fechar uma noite que deliciou os fãs.  (O Povo - é parceiro de oxereta.com)