BOLSONARO X HADDAD

O que sinalizam os candidatos sobre economia

A análise é de que os efeitos da crise econômica devem persistir. Mas cenário pode mudar a depender das propostas e governabilidade

Fabio Lima/O POVO
HUB aéreo é uma das apostas de desenvolvimento do Estado

Um dia após o resultado do 1º turno das eleições presidenciais, o dólar comercial fechou em queda de 2,35%, cotado a R$ 3,766, e a bolsa brasileira em alta de 3,98%. Em grande parte, reflexo do mercado à vantagem de mais de 16 pontos percentuais obtida por Jair Bolsonaro (PSL) nas urnas, em relação à Fernando Haddad (PT). Porém, a análise é que o cenário pode mudar se o candidato que vencer tiver confiança para tocar a política econômica que gere crescimento sustentável.

Um dos consensos é que a instabilidade econômica ainda deve persistir nos primeiros meses de gestão até que as primeiras propostas para resolver os graves problemas econômicos - como o déficit público de mais de R$ 19,7 bilhões, uma Previdência que consome hoje mais de 13% do Produto Interno Bruto (PIB) e o desemprego de mais de 13 milhões de trabalhadores - comecem a ser efetivamente apresentadas.

O economista Alcântara Macedo explica que, do ponto de vista dos investidores, há uma simpatia maior pela candidatura de Bolsonaro, não só pelo perfil de propostas mais liberais (com mais privatização, abertura econômica externa e menos intervenção do Estado), mas pelo que significa o afastamento do PT do poder. "Sem a confiança do mercado, não se governa. E o próximo presidente vai ter muita dificuldade na área econômica, porque está recebendo o País com um déficit público desproporcional e uma crise trazida pelo PT", afirma Macedo, ponderando, por outro lado, que mesmo Bolsonaro terá de demonstrar habilidade de converter crescimento econômico em desenvolvimento.

Já o economista Henrique Marinho entende que só o aval do mercado não basta. Para dar respostas mais rápidas à questão do emprego e da desigualdade é preciso estímulo do Governo. E neste ponto, Haddad teria mais chances. "É preciso que o Governo também promova esta redistribuição da renda por meio de políticas públicas. Se dependesse só do mercado não haveria Minha casa, Minha vida, por exemplo, que tem retorno baixo, mas que gera milhares de empregos".

Diante da atual conjuntura, a necessidade da próxima gestão, independentemente de quem seja eleito, enfrentar questões como a reforma política, da Previdência, tributária e fiscal são outros pontos urgentes apontados pelos especialistas. E os dois candidatos se dizem dispostos a isso.

O presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Lauro Chaves, alerta, no entanto, que o "como será feito na prática" - e que vai ser determinante para o sucesso ou não das reformas- , ainda não está claro em nenhum dos candidatos. "Este debate foi apagado no primeiro turno. O que se espera é que agora terão mais tempo e possam se posicionar mais claramente".

A governabilidade no Congresso é outra incógnita. Bolsonaro vem de um partido nanico, o PSL, mas que conseguiu eleger a segunda maior bancada na Câmara. E, se por um lado, ele vem adotando um discurso mais duro de não negociar, por outro, tem a experiência de mais de 20 anos na política. Já Haddad, tem perfil mais conciliador, seu partido tem a maior bancada, mas vem de uma situação extremamente fragilizada politicamente.

"Ninguém sabe. Os dois poderiam se espelhar em Lula e FHC e garantir governabilidade, ou em Dilma e Collor e ter resultado diferente. O ideal é que fossem mais maleáveis em seus discursos e trouxessem as propostas mais ao centro para compatibilizar com os desafios do País", afirma Chaves.

Também não há garantias de como a sociedade, hoje muito polarizada, vai se comportar diante da próxima gestão e como isso pode influenciar as votações no Congresso. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)