DANÇA

O gesto de Iracema

Projeto Iracema, desenvolvido no Laboratório de Dança do Porto Iracema das Artes, questiona romantização da personagem de José de Alencar

Divulgação/ Alan Sousa
Rosa Primo em espetáculo Iracema

Iracema é, talvez, a personagem mais fértil do imaginário cearense: a índia guerreira do romance homônimo de José de Alencar nomeia equipamentos culturais, hotéis, um bloco carnavalesco, uma extinta marca de sabonetes, um trecho de praia e até mesmo um bairro na Capital. A história da "virgem dos lábios de mel" que guardava o segredo da Jurema, entretanto, anuvia diversas complexidades da relação colonial. Com o intuito de descolonizar a visão sobre narrativas de vida dos povos originários, o Projeto Iracema apresenta os espetáculos de dança Iracema (infantil) e Tudo passa sobre a terra (adulto) na programação da sexta Mostra de Artes do Porto (Mopi) amanhã, 7.

Criado no Laboratório de Dança do Porto Iracema das Artes neste ano, o Projeto Iracema é proposição das artistas e pesquisadoras Rosa Primo, Carolina Wiehoff e Raisa Christina sob tutoria da bailarina e coreógrafa Clarice Lima. O experimento nasceu de um incômodo - quem é essa Iracema docilizada pelo amor ao guerreiro branco do escritor cearense?

"Iracema é uma personagem que, apesar de ser o centro da narrativa do começo ao fim e dar o título ao romance, é silenciada. Ela está presente ali, mas é como se a gente soubesse pouco do que ela sente, do que ela acha. Ao mesmo tempo que está em estátuas e é evocada na Cidade, Iracema é uma figura feminina distante. (A obra) tem um pouco dessa imagem de uma mulher guerreira, forte e leal, mas essa mulher que não teve voz. Isso é muito forte pra gente entender a condição da mulher hoje", pontua a artista visual Raisa Christina. Responsável pelos desenhos lúdicos que integram o cenário do espetáculo infantil, Raisa acompanhou o processo de construção corpórea dessa montagem repleta de "rebeldia e afrontamento".

No palco, a bailarina Rosa Primo dança os dois solos carregados da ancestralidade indígena de sua avó. Surgem, aos olhos do público, "histórias de dor, de resistência, de luta, de muito trabalho, de desejo, de transgressão, de sensualidade, de fé, de mãe, de encontros e alegrias. História de mulheres que vivem a vida, mais desejosas do que desejáveis", em suas palavras. Com duração de 35 minutos cada, os espetáculos contestam a romantização de Iracema e criam outras narrativas possíveis.

Apesar de performar sozinha, Rosa relembra que dança contaminada pelas experiências das outras artistas envolvidas no processo. "Cada uma com filhos e filhas muito pequenos e pequenas", elas se encontraram frequentemente para repensar a presença feminina nas comunidades indígenas e as representações dessas mulheres.

Clarice Lima, tutora, alerta sobre a urgência do espetáculo - e vai além: refletir sobre a presença social do corpo feminino é impreterível. "Falar sobre Iracema em 2018 é um grande desafio. Como falar sobre essa essa personagem em um Estado que tem um alto número de feminicídio? Como falar sobre a história de Iracema tentando não reproduzir essa imagem romântica que o José de Alencar traz para os povos originários, para os povos indígenas? Essa visão na qual o colonizador é o salvador e o índio morre no fim. Esse foi o nosso grande desafio, pensar a figura dessa mulher de outra forma".

Forte, o gesto de Iracema se reconstrói feito um grito gutural nos passos de Rosa Primo. "Cada uma de nós, em nossas singularidades, fomos tecendo Iracemas... Elas estavam em nós. E construímos uma relação possível de escutá-las", encerra a bailarina. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)



Projeto Iracema

Data: Amanhã, às 17h (infantil) e 19h (adulto)

Local: Porto Dragão (Rua Boris, 90, Praia de Iracema)

Quanto: gratuito e aberto ao público