BANCADA DO CEARÁ

Deputados expedem 36 passaportes diplomáticos

O Povo
Denis Bezerra (PSB) abriu mão do benefício

Formada por 22 deputados federais eleitos em outubro passado, a bancada do Ceará na Câmara Federal já expediu 36 passaportes com status diplomático apenas nos primeiros meses do ano. O número supera o tamanho total da bancada pois, entre os beneficiários, estão também esposas e filhos de diversos deputados, que pediram ampliação do benefício - que permite acesso privilegiado a filas de embarque internacional, tratamento diferenciado em alfândegas e até dispensa de vistos mundo afora - também aos seus familiares.

Desde 2011, vigora no País portaria do Itamaraty que limita a concessão de passaportes diplomáticos para cônjuges e dependentes de deputados. Segundo a norma, o benefício só poderia ser ampliado para eles apenas em casos de missão oficial, com pré-avaliação do Ministério e prazo de validade apenas para a duração da viagem. A regra, no entanto, não é respeitada há vários anos pelos parlamentares.

Emitiram passaportes diplomáticos apenas para si os deputados Célio Studart (PV), José Guimarães (PT) Leônidas Cristino (PDT), Luizianne Lins (PT), Pedro Bezerra (PTB) e Vaidon (Pros). Pediram para si e para a companheira os deputados AJ Albuquerque (PT) e André Figueiredo (PDT). Já para si, a cônjuge e os filhos, pediram o benefício os deputados Domingos Neto (PSD), Eduardo Bismarck (PDT), Genecias Noronha (SD), Heitor Freire (PSL), José Airton (PT) e Moses Rodrigues (MDB).

Lembrando que o benefício não é obrigatório (e só é emitido após pedido oficial do gabinete) e sai de graça para o deputado - enquanto o cidadão precisa pagar taxa de R$ 257 para emitir o passaporte regular.

Oito abriram mão do benefício

Do outro lado, recusaram ou deixaram de pedir pelo benefício oito deputados cearenses. São eles Capitão Wagner (Pros), Denis Bezerra (PSB), Dr. Jaziel (PR), Idilvan Alencar (PDT), Júnior Mano (PR), Mauro Benevides (PDT), Robério Monteiro (PDT) e Roberto Pessoa (PR).

Rugido virou miado

No último domingo, o Brasil (ou pelo menos a parte dele em que resta alguma humanidade) parou em choque após o músico Evaldo Rosa dos Santos ser assassinado por tropas do Exército no Rio de Janeiro. Morto sob os olhares da própria família, Evaldo voltava de um chá de bebê em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, quando foi alvejado por 80 tiros de fuzil. Foi - sob qualquer ângulo que se possa observar - uma tragédia e provavelmente o caso de maior comoção social do País neste ano.

Mesmo assim, a resposta do presidente Jair Bolsonaro (PSL) veio quase uma semana depois, na última sexta-feira. Sempre vocal nas redes sociais sobre qualquer tema que esteja na pauta do dia entre a população, o presidente levou seis dias para chegar à conclusão de que o Exército "não matou ninguém" no caso, separando a instituição militar do acidente. Para comentar decisão da Justiça que condenou o humorista Danilo Gentili por conta de uma injúria contra uma deputada do PT, Bolsonaro levou menos de seis horas. Curiosamente, a tardia fala do presidente é mais brande até do que a do responsável pela operação, o ministro Fernando Azevedo e Silva (Defesa), que prometeu apurar o crime "até as últimas consequências" e "cortar da própria carne" se preciso for.

Nos últimos anos, cresce no Ceará e no Brasil uma política que prega o confronto direto contra criminosos como forma de encarar a violência. Uma mentalidade de certa forma até corajosa, mas que mostra seu lado desastroso na inevitável hora em que atinge cidadãos inocentes. Bolsonaro, eleito ano passado como símbolo máximo dessa política do abate com suas "arminhas", tem tudo menos o direito de se calar no momento em que essa conta chega. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)