SÉRIE

Chernobyl é uma pequena obra-prima da TV

Obra da HBO reencena os dramas humanos e políticos que se seguiram ao maior desastre nuclear da história

Divulgação
A produção de Craig Mazin estreou em 6 de maio deste ano

Logo depois do fiasco da temporada derradeira de Game of Thrones, uma pergunta tinha ficado no ar: haveria possibilidade de repetir o sucesso da série de fantasia, conquistando audiência em massa e mantendo os padrões de qualidade da HBO? Chernobyl, cujo desfecho foi transmitido na última sexta-feira pelo canal, não é essa reposta. Afinal, não se comparam trabalhos tão dispares.

Dito isso, a produção de Craig Mazin é a prova de que é possível alcançar níveis extraordinários de excelência televisiva sem tanta parafernália. Nada falta ou sobra na obra, e todas as peças estão harmonicamente encaixadas num enredo que avança para o final num crescendo de tensão e drama.

Numa temporada única de cinco episódios, cada um com aproximadamente uma hora, Chernobyl é uma pequena obra-prima de teledramaturgia e exemplo bem-sucedido da potência que a arte seriada alcançou. Seja pela sobriedade com que trata os eventos narrados, seja pela precisão histórica (há falhas e licenças, mas nada que comprometa), a série é um alento num cenário de superabundância do fantástico e de diluição moldada ao gosto médio.

Os fatos são conhecidos. Em 26 de abril de 1986, a usina nuclear 4 de Chernobyl colapsou e o núcleo do reator explodiu, espalhando matéria radioativa num raio de 200 km - com o tempo, esse alcance iria se expandir, chegando

a outros países.

De imediato, houve contaminação do solo, da água e das pessoas, primeiro as diretamente envolvidas na operação de rescaldo do incêndio e de contenção do vazamento, como bombeiros e soldados do exército russo e ucraniano. Depois, das populações vizinhas, expostas à radiação antes de serem evacuadas sem saber do que se tratava - como se verá, a manipulação da informação é um elemento-chave.

A história é conduzida principalmente pelo trio de personagens interpretados por Jared Harris, que vive o cientista Valery Legasov, chefe da comissão responsável por investigar o acidente nuclear; Stellan Skarsgård, o burocrata comunista Boris Shcherbina e Emily Watson, a física Ulana Khomyuk - os três em atuação irretocável.

Em torno do trio vai se desenrolar o ponto central da narrativa: qual é o custo da mentira? É a essa questão que Chernobyl tenta responder, e responde de fato, sem cair na armadilha de final aberto, tão em voga hoje. Para Mazin, a verdade é vital. Apenas ela reúne força suficiente para desmantelar o sistema de asfixia de qualquer dissidência arquitetado pelo totalitarismo comunista.

De que verdade se fala, porém? Da verdade científica, verificável e assentada num conjunto de procedimentos que podem ser compartilhados. Sobre isso, é interessante acompanhar a discussão a respeito da possibilidade de que o reator houvesse, de fato, explodido, na qual fica evidente essa disputa entre conhecimento e obscurantismo.

Em meio às engrenagens do aparato da burocracia estatal, essas personagens se defrontam cada uma com o peso que as suas ações e descobertas têm. Chernobyl encena, dessa maneira, um embate entre a fé cega do homem comum no propósito transcendental (naquele caso, representado pela ideologia comunista, da qual o partido era a síntese) e o questionamento que o discurso científico instaura, provocando fissuras no dogmatismo.

Disso resulta uma marca que talvez seja a mais destacada da série: a sua atualidade. Embora se passe mais de três décadas atrás e se refira a um mundo polarizado que parece enterrado junto com a usina nuclear, a produção fala diretamente ao nosso tempo, no qual democracias estão sob ameaça de regimes cuja matéria-prima é a mentira.

A série funciona como um alerta claro e sem rodeios de que tragédias podem se repetir quando a verdade é substituída pela versão, que passa de chefe para chefe, numa cadeia de reprodução cuja origem se apaga e ao final resta apenas a ordem, arbitrária e banal, como escreveu Hannah Arendt. Se há algo comum a desastres (o holocausto ou o nuclear), é o papel que os homens comuns desempenham na execução de tarefas que, em última instância, acabam por levar à morte de milhares. Nada é mais atual do que isso. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)


Livro é rico testemunho do cotidiano de Tchernóbil

Serviço


Chernobyl, de Craig Mazin

Onde assistir

HBO (canal) ou HBO Go (serviço de streaming)


O fim do homem soviético

Estante

Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch

Cia das Letras

Quanto: R$ 57,90

Páginas: 384


O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch

Cia das Letras

Quanto: R$ 69,90

Páginas: 600