ECONOMIA CRIATIVA

Os desafios para surfar na onda do "slow fashion"

Aurelio Alves/O POVO
Peças de decoração feitas em madeira, no Mercado Central

Embora careça de números mais precisos, especialistas são unânimes em afirmar que, hoje, o artesanato é um dos principais pilares da economia criativa no País, um dos mercados que mais cresce no mundo. Não sem razão. Há um movimento de consumidores que busca mais do que só o consumo pelo consumo.

A doutora em administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Cláudia Buhamra, explica que esse segmento de consumidores é mais consciente e preocupado com as questões de sustentabilidade, a ponto de abrir mão das roupas de moda massificadas, chamada fast fashion, fruto da tecnologia que gera mais do mesmo. E passa a valorizar as roupas mais ligadas às origens, ao comércio justo, diferenciadas pelo feito à mão, como o artesanato. É o movimento batizado de slow fashion.

"Esse movimento representa um certo tipo de empoderamento do consumidor, significando que ele usa o quer e se expressa como quer, sem se sentir pressionado por seguir a moda. Mas isso não quer dizer que seja um consumidor menos exigente. Ao contrário. Ele compra menos, mas exige qualidade uma vez que a roupa é uma forma de auto-expressão", observa.

Esta mudança de cenário, por outro lado, exige do artesão conhecimentos mercadológicos mais amplos do que antigamente, de modo que o artesanato deixe de ser commodity, onde todos são iguais, e passe a gerar diferenciais no próprio produto.

Espedito Seleiro, 79 anos, artesão do sertão cearense reconhecido nacional e internacionalmente pelo seu trabalho com couro, ofício herdado de seu pai, que calçou Lampião, o Rei do Cangaço, sabe bem disso. Foi quando decidiu investir no estilo próprio, em meados da década de 1980, que conseguiu dar uma guinada na carreira que começou aos 8 anos.

Naquela época, as vendas de materiais para vaqueiros, tropeiros e ciganos estava em baixa pelo próprio escasseamento destas atividades, foi quando ele decidiu fazer peças mais atuais, colocar mais cor e marca nos seus produtos. Hoje, seus sapatos, bolsas e acessórios estão em lojas, integram desfiles de moda e produções cinematográficas. "Cada um tem que buscar seu próprio estilo que é isso que as pessoas que vem de fora buscam".

A artesã, empresária e consultora, Ethel Whitehurst, há mais de 30 anos se dedica ao desenvolvimento da cadeia produtiva de rendas e bordados no Estado. E diz que, dentre as práticas que têm feito a diferença no setor - além de, obviamente, capacitação dos artesão e investimentos em promoção - está uma maior integração do trabalho do design com o do artesão. "E pagando o preço justo aos artesãos porque é isso que vai garantir a melhora da qualidade de vida daquelas famílias".

A analista do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Ceará (Sebrae-CE), Diva Mercedes, afirma que é preciso avançar também no trabalho de formalização, na construção de uma rede para fomentar a distribuição e capacitação dos artesãos. "Porque quem não se prepara, tem mais dificuldade de acessar este mercado, principalmente, o internacional". (O Povo - é parceiro de oxereta.com)