BASTIDORES DO VOZÃO

Presidente do Ceará, Robinson de Castro conta bastidores exclusivos sobre investimentos do clube

Entre outros assuntos, mandatário alvinegro definiu contratação de Rafael Sóbis como a maior da história do Alvinegro, comentou saída de Thiago Galhardo e negociação abortada com o goleiro Jean

Thaís Mesquita
Mandato de Robinson de Castro à frente do Ceará vai até 2021

Opresidente do Ceará, Robinson de Castro, deu breve pausa no momento agressivo do clube no mercado da bola para conceder entrevista exclusiva, realizada na última quarta-feira, ao O POVO sobre a temporada de 2020. Com dez reforços anunciados oficialmente, entre eles jogadores renomados nacionalmente, o mandatário explicou como o Alvinegro conseguiu ganhar as condições atuais de investimento, falou sobre o legado que quer deixar no clube e contou os bastidores da contratação de Rafael Sóbis e da saída Thiago Galhardo, além da polêmica negociação do Vovô com o goleiro Jean.

O POVO – O que permitiu ao Ceará chegar com essa agressividade no mercado da bola em 2020?

Robinson – O que está nos permitindo ter esse momento de agressividade no mercado foi o dever de casa. Muita gente imagina que seja somente pagamento de dívidas. Somos um clube com endividamento irrelevante no contexto atual do clube. Toda infraestrutura que tivemos que montar no clube, com equipamento, acervo de máquinas modernas, tecnologia avançada. Tudo tinha necessidade, havia carência. Última oportunidade de trocar foi em 2010, 2011. Já estava superado. A gente requalificou isso na base e no profissional. Esse investimento na base é muito importante. Digo que a melhor safra está chegando.

O POVO – E a folha salarial já começa robusta em 2020?

Robinson – Nós vamos começar o campeonato local com a folha maior do que terminamos 2019, fora as aquisições de atletas. Será um pouco a mais do que R$ 3 milhões, quase chegando no teto projetado de R$ 3,5 milhões. Isso não garante resultado, que fique claro. O torcedor faz muita relação com resultado. O elenco está bom, chegamos a tirar jogadores que estavam praticamente contratados por outros clubes, impressionando o Brasil inteiro. No caso do Charles, foi um negócio muito vantajoso para o Ceará, tanto no retorno desportivo que ele pode dar quanto no retorno do investimento que fizemos. Jogador jovem com valor de mercado interessante. Deve valorizar bastante e tem perfil para jogar na Europa.

O POVO – Como foi essa mudança de perfil no mercado?

Robinson – É também para dar um pouco mais de paz para o clube em termos de pressão. Já é difícil permanecer na Série A. A gente tem sido muito conservador. Nosso estilo de gestão é de responsabilidade. Eu sempre disse que se o Ceará caísse, cairia de pé, diferente de clubes que caem deitados e não se levantam mais. Não estamos fazendo loucura, nada que não esteja na ponta do lápis.

O POVO – Conta um pouco dos bastidores da negociação com o Rafael Sóbis.

Robinson – Ano passado já tinha acertado a vinda do jogador. Mas tinha uma ressalva, desde que o Inter não o quisesse estaria tudo acertado com o Ceará. Mas naquele momento o Inter contrato o Sóbis. Era a preferência dele, ídolo lá. A gente amadureceu a ideia em 2020 (após ele ficar livre no mercado). Não só do ponto de vista do nome, mas o resultado desportivo que ele pode trazer. Não dá para trazer só pela marca, nome. Analisamos bem. Depois que decidimos, foi rápida (a negociação), não teve dificuldade.

O POVO – Como você avalia o peso da contratação do Sóbis?

Robinson - A meu ver, talvez, a nível de nome, de carreira, é a maior contratação da história do clube. Pela carreira que teve, campeão da Libertadores, e que pode render. É um jogador ainda jovem, de 34 anos. O Magno Alves quando chegou aqui a primeira vez era mais velho do que ele.

O POVO – Você planeja se desligar do Ceará após o fim do mandato em 2021?

Robinson – Planejo sim. É uma atividade que você precisa se dedicar, e não só 100%, mas 150%. Espero deixar um legado da minha gestão quando terminar em 2021. Sem dúvidas será um clube que vai incomodar e chamar a atenção. Espero sair do clube mantendo-o na Série A, com mudança de chave do que era antes e o patamar depois.

O POVO – E quais são suas metas até 2021?

Robinson – Coloquei no meu planejamento estratégico apoiada pela Fundação Dom Cabral, que eleva o patamar do desenvolvimento no clube, entregar o Ceará entre os 15 melhores clubes do ranking da CBF. Já estamos em 19º. Se ficarmos entre os melhores ranqueados do Brasil, vou estar satisfeito. Para chegar, preciso de resultados desportivos. Eu não vou chegar aqui e dizer que quero ser campeão daquilo porque é complicado. Isso fica gravado e os torcedores rivais pegam isso e ficam brincando. Eu aprendi que no futebol que não se deve se expor muito. A meta é estar entre os 15 melhores, e se conseguirmos certamente é porque coisas boas aconteceram.

O POVO – Agora sobre o mercado da bola. Rossi é o nome da vez?

Robinson – É um jogador que está sendo muito assediado, mas entramos muito forte. Estamos ali liderando – deve ter mais dois clubes no máximo liderando o maior investimento no atleta. Mas me parece que o atleta tem o objetivo de sair do Brasil. Está fazendo o papel dele, analisando para fazer a melhor escolha.

O POVO – E sobre o volante que vem da Europa?

Robinson – Jogador que já está acertado. Mas precisava resolver junto ao clube. Peço que se alguém queira chutar esse nome, não faça porque pode acertar. E se acertar prejudica a negociação. É um jogador com perfil muito interessante que a gente quer trazer.

O POVO – Lima ainda no radar?

Robinson – Existe certa dúvida em relação ao Lima. Atleta quer retornar ao Ceará, mas estamos avaliando para não ficar com elenco muito estourado em quantidade. Temos muitos garotos da base. Estamos esperando o coordenador técnico da base, que está acompanhando a Copinha, voltar para a gente conversar.

O POVO – O Argel tem total confiança da diretoria?

Robinson – A gente está dando todas as ferramentas para que os profissionais do clube possam executar bem o seu trabalho. Elenco qualificado, os principais jogadores ficaram. Alguns jogadores foram procurados por outros clubes e a gente segurou. O Argel vai ser cobrado por todos, a torcida quer resultado. Jogadores vão ser cobrados, eu vou ser cobrado. Ele tem espírito guerreiro, um comando de muita autoridade. Vai haver cobrança para jogarem com esse espírito. A gente confia nisso. No CSA, fez um belo trabalho com muito menos munição.

O POVO – Sobre a saída do Thiago Galhardo, houve desgaste? Gostaria que você esclarecesse.

Robinson – Thiago sempre se dedicou, teve bom ambiente, aceitava bem as cobranças. Quando foi para o banco não reclamou. Baita profissional. Mas o Thiago é um cara sonhador, às vezes, não sei se é ansiedade ou é empolgação, - falam que ele é empolgado -, e ele quer acelerar alguns processos. Na reta final já estava se despedindo de todo mundo, dizendo que tinham muitos clubes atrás dele. Eles (jogador e staff) que me propuseram o contrato de dois anos. Tinha multa recíproca. Não gosto de pegar jogador e deixa-lo no clube a força. Quando disse que ia embora, eu disse ‘ok, mas se for embora precisamos fazer uma composição, preciso de alguma coisa para o Ceará ou pelo clube que vai comprar ou por você. Pela parceria que o Inter teve com a gente em relação ao Charles e Klaus (decidimos liberar). Então, eu disse: ‘ele vai, mas o mês de dezembro, vencimentos e todas as verbas eu queria como quitação’. Teve um pouquinho de mal-estar, mas coisa leve. Desejo a ele muito sucesso, jogador talentoso.

O POVO – Gostaria que você esclarecesse também o interesse do Ceará no goleiro Jean, que acabou tendo repercussão negativa na torcida.

Robinson – O jogador tinha trabalhado com o Argel. Ele conhecia e acreditava no jogador. Analisamos e entramos em contato. Surgiu como uma possibilidade forte. Ele cometeu um erro, um procedimento no âmbito criminal, mas existe essa coisa toda na rede social, de empoderação de determinados setores da sociedade e criam também esse tipo de resistência. Se fosse uma convicção muito forte do clube poderia ter acontecido. Mas Deus escreve por linhas tortas. Não existiu uma grande convicção. E se acontecesse a mesma coisa envolvendo o Neymar e tivesse a oportunidade de trazer para o Ceará. A gente iria trazer ou não? Iria ter convicção? A reação das pessoas seria a mesma ou reduziria bastante? Está um pouco vinculado ao tamanho do profissional. As pessoas são mais permissivas com algumas situações. Eu não sou radical.

O POVO – Como tem sido o rendimento inicial da marca própria?

Robinson – Projeto que começou vencedor. Vendemos 10 mil camisas em uma semana. A gente imagina que bata 100 mil camisas em um ano. Quero encontrar pessoas simples na rua com a camisa do Ceará, que tenha dito que foi para o jogador, que faça parte do sócio.(O Povo - é parceiro de oxereta.com)