CEARÁ

Ceará teve 798 jovens de 12 a 24 anos assassinados em cinco meses de 2020, diz Cedeca

Número chega a mais de 40% do total de mortes violentas entre janeiro e maio deste ano no Ceará

Marcello Casal Jr/ Agência Brasil
A nota do Cedeca afirma que o Ceará vive uma escalada de mortes violentas, com curva vertiginosa de casos de meninas.

Chega a 798 o número de adolescentes e jovens, de 12 a 24 anos, que foram assassinados de janeiro a maio de 2020. O dado foi divulgado em nota pública pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) do Ceará com o Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará (FPSP) e a Plataforma de Direitos Humanos – Dhesca. De acordo com o órgão, as mortes violentas atingem, principalmente, adolescentes e jovens negros e pobres.

Os números evidenciados pelo Cedeca são 42,29% do total de mortes violentas do período no Ceará. Se comparado com os cinco primeiros meses de 2019, a variação é de 138,92%. A compilação foi feita a partir de registros da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Além disso, o Cedeca destaca que, além dessa violência, o crescimento de feminicídios revela o impacto do isolamento social e o acirramento das desigualdades no Estado.

O Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Fortaleza (Comdica) já havia divulgado nota evidenciando que pelo menos 69 crianças e adolescentes foram assassinadas no Estado entre 20 de março deste ano até o último dia 27 de maio, período de isolamento social devido à pandemia de Covid-19. O número de homicídios explodiu no Ceará durante o isolamento rígido.

A nota do Cedeca afirma que o Ceará vive uma escalada de mortes violentas, com curva vertiginosa de casos de meninas. "São meninos e meninas, em sua grande maioria, negras que moram nas periferias das mais diversas cidades do Ceará. O problema embora mais grave do que nunca, é continuidade de um processo que percorre a nossa história e pode ser descrito como verdadeiro genocídio da população negra", diz o texto.

"Mortes que acontecem e são esquecidas, negligenciadas e tratadas como eventos 'normais' pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do estado do Ceará", criticam as entidades. Ainda de acordo com o documento, a pandemia "revela a profundidade da miséria e da desigualdade social local e mostra o fracasso de políticas de segurança feitas para permitir que pobres e pretos morram".

No documento, o FPSP e a Plataforma cobram o funcionamento do programa municipal "Cada Vida Importa", com orçamento previsto para 2020 reduzido em 67,95% (R$ 683 mil).

"Além disso, programas estaduais como o Programa de Proteção a Criança e Adolescente Ameaçado de Morte (PPCAAM) e o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDH) - ambos do Governo Federal - chegaram a ficar cerca de dois meses sem equipe especializada de atendimento", denuncia a nota.

O Fórum alerta ainda para o crescimento da subnotificação de óbitos que são classificados como "mortes a esclarecer". Entre 2014 e 2018, o número de ocorrências dentro dessa classificação chegou a 3.841, um aumento 46,8%, do primeiro ao último ano.

Além disso, as entidades denunciam que a base de dados da SSPDS não inclui a informação "raça" na listagem de homicídios, impossibilitando análise dentro da perspectiva racial. O POVO questionou a pasta sobre a ausência da informação e se a Secretaria da Segurança Pública pretende incluir o dado nos relatórios e aguarda retorno.(O Povo - é parceiro de oxereta.com)