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Metade das brasileiras passou a cuidar de alguém na pandemia

Quarentena e home office evidenciam desigualdades. Pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número. Sociedade precisa discutir a valorização do trabalho doméstico e o machismo

Deisa Garcês - O Povo
Karina Gomes relata o aumento da autocobrança com a sobrecarga de atividades no home office

Com a pandemia da Covid-19, as dinâmicas de trabalho, atividades domésticas, rotina familiar têm sido diretamente alteradas nos últimos meses. Quarentena e home office evidenciam desigualdades de gênero e raça no qual as mulheres, sobretudo negras, são ainda mais sobrecarregadas. Pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número, em parceria com a SOF Sempreviva Organização Feminista, mostra que metade das brasileiras passou a cuidar de alguém durante esse período. Diante desse agravamento, urge ampliação do debate sobre a valorização do trabalho doméstico e de cuidado e o machismo. Bem como a cobrança de políticas de auxílio para mulheres em trabalhos precarizados.

Conforme o relatório, publicado esta semana, 41% das mulheres com emprego afirmam estar trabalhando mais do que antes. Mulheres negras têm menos suporte nas tarefas de cuidado. Nos ambientes rurais, 62% das respondentes afirmaram que passaram a exercer tarefas de cuidado.

Segundo Giulliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, o que a pandemia traz de diferente ao cenário de desigualdade de gênero e raça no trabalho de cuidados é a impossibilidade de contar com espaços de cuidado, como escolas e creches. "Muitas trabalham meio turno porque no outro cuidam dos filhos. Com a saída dessas instituições, esse trabalho se intensifica", diz. Ela defende que é o momento de rever a importância conferida ao trabalho doméstico e os cuidados com outras pessoas e "entender que esse trabalho precisa ser valorizado".

Conforme o levantamento, 80,6% passaram a cuidar de familiares, 24% de amigos/as e 11% de vizinhos. Isso ocorreu entre 52% das negras, 46% das brancas e 50% das indígenas ou amarelas. Do total, 35,7% são as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidado em suas casas. Para 65,4% delas, essa responsabilidade dificulta a realização do trabalho remunerado.

"Essa discussão precisa extrapolar o ambiente doméstico. A divisão sexual do trabalho é cultural e não vai mudar da noite para o dia com a pandemia. Precisa ser tratado nas empresas, nas escolas, no meio público. Um compromisso de olhar para essa questão. As mulheres precisam que os empregadores olhem para isso", destaca.

É primordial que o auxílio emergencial e as medidas para a população com trabalho mais precarizado sejam ampliadas, visto que o impacto econômico coloca em risco a sustentação das famílias. "As mulheres negras e que moram nas áreas rurais têm uma percepção de risco à manutenção das casas mais elevada", pontua. Para 40% das mulheres, a pandemia e o isolamento social colocaram a sustentação da casa em risco. Além disso, 58% das mulheres desempregadas são negras.

"Precisamos de outras iniciativas pensadas nessa perspectiva de trabalhadoras domésticas que não podem depender da consciência de classe de um Brasil escravocrata", defende. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)