DURANTE A PANDEMIA

Renegociar dívidas é saída para crise financeira

Economistas apontam que um acordo pode trazer alívios, mas deve começar pela organização das finanças. No Brasil, o número de endividados cresceu em julho deste ano

Reprodução - O Povo
A professora Gladsciany Alves, 35, perdeu toda a renda durante a pandemia

Oendividamento atingiu 67,4% das famílias brasileiras em julho deste ano, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Desse total, 12% não terão condições de honrar os compromissos. Ocorre que, neste cenário de crise, a prioridade é a sobrevivência e o pagamento do cartão de crédito e carnê de loja. Outros podem ficar para depois. Apesar das dificuldades, a renegociação e ajustes no orçamento familiar são capazes de aliviar as dívidas.

Mas não é um caminho fácil, sobretudo, em um contexto no qual muitos trabalhadores perderam a renda ou a tiveram reduzida. A diretora do instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef-CE), Darla Lopes, destaca que a necessidade da organização financeira ficou mais evidente durante a pandemia.

"As pessoas passaram a fazer mais isso, mas há um grande erro ao começar. Muitos começam pela negociação e o ideal é passar por etapas de análise das dívidas primeiro", explica. Darla enumera que é necessário fazer uma espécie de mapa das contas, incluindo o credor, valor da parcela, encargos, receita da família ou pessoal.

"Isso é crucial para saber quanto está disponível para repactuar. Porque pode acontecer uma negociação, mas a pessoa não conseguir cumprir o acordo", pontua.

A vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-CE), Silvana Parente, acrescenta que, após a fase de reorganização das finanças, é preciso buscar a revisão principalmente dos financiamentos de crédito rotativo, por exemplo, o cartão e cheque especial. "Deve-se pedir um refinanciamento, mas, também, consultar outros bancos ou fintechs (bancos digitais) para analisar as propostas e taxa de juros", diz, destacando que a portabilidade é uma forma de baixar o valor total da débito e gerar fôlego no orçamento.

"É muito importante para transforma dívidas de curto prazo e com taxas altas e uma de médio e longo prazo e ainda com uma taxa de juros menor", frisa, destacando que Selic hoje está no menor patamar da história (2,25%). O cartão de crédito segue como o mais apontado pelas famílias como a principal modalidade de endividamento (76,2%), seguido por carnês (17,6%) e financiamento de veículos (11,3%).

Procurada para saber qual a orientação durante esse momento crítico para os clientes, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que tem recomendado flexibilizações. Dentre elas, a prorrogação de parcelas de contratos de crédito em até 180 dias.

Entre 16 de março a 03 de julho, o setor renegociou 12,8 milhões com operações em dia, que têm um saldo devedor total de R$ 744,5 bilhões. A soma dessas parcelas suspensas totaliza R$ 93,7 bilhões. "Nessas renegociações, os bancos têm garantido a manutenção da taxa contratual já pactuada, sem a incidência de encargos de atraso, dado que não houve mora por parte dos clientes, mas sim a opção de prorrogar suas parcelas", disse em nota. O valor é diluído nas demais prestações vincendas ou realocadas no final do contrato.

Personagem: Professora perdeu renda e se reinventou

A professora Gladsciany Alves, 35, perdeu toda a renda durante a pandemia. Sem dar aulas particulares, o dinheiro que a ajudou a manter as despesas foi o auxílio emergencial de R$ 600. Com a ajuda da mãe e do namorado para algumas outros contas fixas, como aluguel, utilizou a primeira parcela para renegociar uma dívida e investir em um loja online de decoração (@artcumbuco ou www.artcumbuco.com).

"Consegui baixar a dívida que tinha no banco para R$ 300 e o restante comprei artesanato", diz. Os serviços prestados para site e divulgação da empresa foram todos negociados, sem gerar novas dívidas. Enquanto o negócio ainda não obtém ganhos maiores, o auxílio emergencial tem sido destinando para o capital de giro e sobrevivência. "Foquei na economia criativa e comecei a vender as peças de artesãos de Canoa Quebrada, Cumbuco. Assim, eu os ajudo e consigo tirar uma renda. Foi todo mundo se ajudando", conta. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)