AGLOMERAÇÕES EM FORTALEZA

Retomada econômica: "As pessoas precisam entender que a pandemia não terminou", alerta especialista

Especialista entende que se Fortaleza viver uma segunda onda de muitas contaminações, o sistema de saúde irá colapsar

Fabio Lima/O POVO e ANGÉLICA FEITOSA - capa
Movimentação de pessoas na Praia de Iracema, entre os espigões da Rui Barbosa e da João Cordeiro neste domingo, 19 de julho / Aglomeração no calçadão da Beira Mar na noite deste domingo, 19 de julho

O fim de semana em algumas áreas de Fortaleza pode não ter sido movimentado por turistas, mas a população fortalezense decidiu sair de casa e ocupar o calçadão da Beira Mar. Imagens do O POVO registraram a maioria das pessoas sem máscaras de proteção e aglomeradas, mesmo com obrigatoriedade de uso em espaços públicos e privados definida pela Lei Estadual 17.234.

De acordo com enfermeira infectologista Lúcia Duarte, o descumprimento das medidas sanitárias é preocupante e pode causar uma segunda onda de infecções por coronavírus. Segundo ela, isso levaria a um colapso no sistema de saúde, mesmo tendo suportado, com dificuldade, a primeira onda.

“Tem um agravante, que é o [avanço do coronavírus no] Interior”, comenta a especialista. Ela explica que quando as unidades de saúde do interior e da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) não suportam a quantidade de casos, os pacientes são enviados para a Capital.

No entanto, se Fortaleza viver mais uma vez o cenário de alto índice de contaminados e, por consequência, maior taxa de ocupação em enfermarias e Unidades de Tratamento Intensivo (UTI), não será possível atender a todos. “Vai ter um colapso. Muitas pessoas precisando de serviço de saúde e muita morte”, preocupa-se. Justamente por isso, a ideia de imunidade de rebanho também é inviável no Ceará e no Brasil, reforça Lúcia.

“As pessoas precisam entender que a pandemia não terminou. Se a gente sai sem a máscara, por exemplo, a gente corre o risco de se contaminar, e uma vez contaminada, corre o risco de adoecer. Logo agora que estamos começando a relaxar, não querendo reviver o que a gente já teve que viver [durante a pandemia]”, lamenta.

Medidas e riscos

Ao sair de casa, seja para ambientes públicos ou privados, o uso de máscaras é obrigatório. O vírus Sars-Cov-2 é transmitido pelo ar, principalmente por aerossóis: gotículas tão finas que ficam suspensas no ar. O uso da máscara reduz o espalhamento dessas partículas pela respiração, além de impedir que outras pessoas sejam contaminadas ao inspirá-las.

Quando as máscaras não são utilizadas ou quando colocadas de maneira inadequada (não cobrindo o nariz ou apenas abaixo do queixo), a probabilidade de infectar uma pessoa é muito maior. Além do mais, algumas pessoas podem ser superpropagadoras da doença - aquelas que contaminam mais do que o normal, seja por tendência biológica, seja por alguns hábitos.

Ao O POVO, o infectologista Keny Colares explicou que pessoas falando alto, cantando ou respirando intensamente - como quando se está cansado de uma atividade física - tendem a espalhar mais o vírus. É por isso, por exemplo, que os decretos do Plano de Retomada Econômica autorizam sair para exercícios físicos individuais e sempre com máscara.

Ambientes fechados ou abertos, a máscara é obrigatória

Outro fator que aumenta o risco da propagação é ficar em espaços fechados, sem ventilação natural. Para Lúcia, os shoppings devem ser evitados, assim como as academias. Ela explica: as academias são locais fechados, com ar condicionado e equipamentos sendo constantemente compartilhados.

Da mesma forma, a aglomeração em praias também coloca a população em risco. Mesmo estando em ambiente aberto, muitas pessoas estão indo à praia sem máscaras e descumprindo o distanciamento mínimo, compartilhando espaço demasiado próximo com desconhecidos.

Lúcia, que também é coordenadora do GT de Enfrentamento à pandemia de Coronavírus na Universidade Estadual do Ceará (Uece), lembra que Fortaleza só pode continuar com a abertura econômica se cumprir as medidas sanitárias. “Se a gente não estivesse cumprindo, o caos estaria instalado. Não é momento de parar”, frisa.

“Vamos ficar com essas medidas até sair a vacina. Ela é o que vai dar a verdadeira proteção. Nós não podemos fazer sair de casa totalmente com segurança sem ter a vacina”, reforça.

Durante a entrevista, a especialista ainda lembrou sobre o sofrimento dos profissionais de saúde e das pessoas que perderam familiares pela Covid-19. “É uma doença muito grave pra gente estar se expondo desse jeito. Causa muito sofrimento. As pessoas sabem disso, porque todo dia sai na TV e nos jornais”, lamenta.

O Ceará registra 147.566 casos de Covid-19 e 7.185 mortes pela doença, segundo boletim atualizado às 9h6min desta segunda-feira, 20, na plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). Foram 188 novos casos confirmados e seis mortes a mais que o registrado às 16h57min do domingo. São 122.716 pacientes recuperados do novo coronavírus no Estado.  (O Povo - é parceiro de oxereta.com)