ELEIÇÕES NA ALEMANHA

Liberais se tornam inevitáveis nas negociações pós-eleitorais na Alemanha

Com 11,5% dos votos nas eleições de domingo, o Partido Liberal (FDP) deixa claro que obteve muito mais do que um quarto lugar.

GEORG WENDT / AFP
A chanceler alemã Angela Merkel reage ao alimentar lorikeets no Bird Park em Marlow, norte da Alemanha, em 23 de setembro de 2021

Os liberais alemães voltam ao primeiro plano da política e estão emergindo como um componente inevitável na coalizão pós-Merkel. Mas até onde essa formação, próxima da direita, está disposta a ir para governar com os ambientalistas, seus "rivais favoritos"?

Com 11,5% dos votos nas eleições de domingo, o Partido Liberal (FDP) deixa claro que obteve muito mais do que um quarto lugar.

Junto com os Verdes (14,8%), o partido será o "fazedor de chanceler" nas longas negociações para constituir uma maioria.

Ecologistas e liberais podem decidir aliar-se tanto aos social-democratas (SPD), que avançaram, quanto aos conservadores da aliança CDU/CSU, que também querem formar um governo.

Os dois partidos menores têm o destino dos maiores em suas mãos. Desde que consigam superar suas próprias diferenças.

Inflexível quanto a ortodoxia orçamentária, hostil aos aumentos de impostos e regulamentação do Estado, a linha política do FDP parece muito difícil de conciliar com a dos Verdes, que querem aumentar o salário mínimo, tributar os mais ricos e investir bilhões de dólares na transição ecológica.

Esta situação parece algo "já visto" pelo líder da formação, Christian Lindner, que nas eleições de 2017 se inclinou a formar uma aliança "Jamaica" com conservadores e Verdes, nomeada assim pela coincidência de suas cores com as da bandeira do país caribenho (preto, amarelo e verde).

No entanto, após várias semanas, o FDP abandonou as negociações sem avisar, afirmando "que era melhor não governar do que administrar mal".

Esta decisão mergulhou a Alemanha em uma crise política sem precedentes, atrasando a formação de um governo por vários meses.

Quatro anos depois, a situação mudou. Os liberais "parecem muito ansiosos para ingressar no governo", diz Paul Maurice, especialista em Alemanha do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI).

Lindner, um ex-consultor de 42 anos, fez um gesto aos Verdes na noite de domingo: "O próximo governo será marcado pela ecologia, é um desejo claro da sociedade", disse ele.

Embora tenha reconhecido que "são os Verdes e o FDP que mantêm mais divergências e devem iniciar as negociações".

Mensagem bem recebida pela líder ambientalista Annalena Baerbock, que também sugere que as dois comecem a conversar.

A lacuna entre o partido preferido do setor empresarial e os ambientalistas é um obstáculo difícil de transpor, segundo observadores.

"Por muitos anos, os Verdes foram os adversários preferidos dos liberais", noticiou o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung nesta segunda-feira, lembrando que os "Grünen" são frequentemente criticados pelo FDP como o "partido das proibições".

Christian Lindner, fã de Porsche que ingressou no FDP aos 16 anos, no qual assumiu a liderança aos 34, não esconde sua ambição: tornar-se ministro das Finanças da maior potência econômica da Europa.

Para os Verdes, uma espécie de "casus belli".

Em nível regional, ambos os partidos encontraram certos pontos em comum e governam em conjunto em dois Länder (estados), Renânia-Palatinado (oeste), liderado pelo SPD, e Schleswig-Holstein (norte), pela CDU.

São também os preferidos dos jovens, que elogiam a sua abertura em termos sociais (família, direitos das minorias, liberdades individuais...).

Verdes e liberais foram a maioria entre os que votaram pela primeira vez.

Esta nova popularidade do FDP é um crédito atribuível a Lindner. Ele deu um novo impulso ao partido, que havia recuado para 4,8% dos votos nas eleições legislativas de 2013. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)