ELEIÇÕES 2022

Quem ganha e quem perde com a briga entre Ciro, Dilma e Lula

Tanto no cenário nacional quanto para a política cearense, segundo especialistas, a briga possui consequências e já antecipa possíveis desdobramentos para as eleições de 2022

Reprodução/Twitter
No Twitter hoje, 13, Dilma e Ciro brigaram em discussão que começou com o ex-governador do Ceará envolvendo Lula no impeachment de 2016; entenda

Nessa quarta-feira, 13, a ex-presidente Dilma Rousseff e o presidenciável Ciro Gomes (PDT) trocaram críticas no Twitter durante toda a tarde. O episódio, tanto no cenário nacional quanto para a política cearense, segundo especialistas, possui consequências e já antecipa possíveis desdobramentos para as eleições de 2022.

O cientista político e doutor em Sociologia e Professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Emanuel Freitas, destaca não haver novidades na estratégia do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) em proclamar ataques ao PT. A questão, segundo ele, foi o presidenciável ter chamado Dilma Rousseff (PT) para o embate logo após ter feito o pedido de trégua.

O cientista afirma que ainda é cedo para avaliar quem ganhou ou quem perdeu politicamente com esse embate. Ele avalia, porém, que o episódio serviu para reforçar o papel e as narrativas já impostas pelo ex-ministro aos seus adversários do PT, legenda que mais rivaliza com ele no Nordeste. “O que acho é que cada um permanece no seu quadrado, ninguém ganha nem perde, mas dá mais elementos para cada um deles legitimar sua tese”, afirma.

“O Ciro ataca Lula como parte da estratégia não é novidade. O Lula responder como respondeu também não é novidade. Além disso, não é só o Ciro que faz isso, a Gleisi Hoffman já fez ataques a ele. É uma briga entre iguais, porque não acena para uma terceira via, acontece entre antigos colegas, e que não tem nenhuma novidade”, avalia Emanuel.

A nível local, já é possível projetar um cenário mais claro sobre os efeitos desse embate. Segundo Freitas, no âmbito estadual, a disputa acaba sendo usada por lideranças de oposição ao governo estadual, encabeçadas pelo pré-candidato ao Palácio em 2022, o deputado federal Capitão Wagner (Pros), adversário do governador Camilo Santana (PT), cuja base utiliza-se da união entre PT-PDT no Ceará. “Ele explora a ideia de fogo no parque. Nesses ataques esse ele acaba descredenciando os dois candidatos mais à esquerda e acaba produzindo um cenário mais positivo para a direita. Enquanto a direita tem candidatura, você tem a esquerda brigando para quem é o mais potente”, destaca.

O episódio, segundo o cientista, também ajuda a legitimar discursos de alas mais radicais do PT - encabeçadas pelos deputados petistas José Airton e Luizianne Lins - que buscam viabilizar uma candidatura própria ao governo cearense em 2022. “Isso vai legitimando a ideia de que se precisa de uma candidatura própria para puxar palanque para o Lula, uma vez que dificilmente os Ferreira Gomes vão apoiar uma candidatura do Lula mesmo no segundo turno. Em 2018, não houve envolvimento dos FG e nem do grupo político do Roberto Cláudio na candidatura do Haddad”, afirma.

Porém, a briga não movimenta os interesses da parcela do PT mais pragmática, defende Emanuel. “Eles sabem que a eleição do Camilo (ao Senado) depende de uma coligação programática com os Ferreira Gomes”, completa.

Segundo a cientista política Monalisa Soares, a investida de Ciro revela mais uma estratégia clara de se reforçar no campo do antipetismo e anticorrupção. “Perpassa pelos que associam o governo Lula a corrupção, é um discurso de que o governo Dilma foi incompetente, que não geriu bem o Estado e colocou o brasil numa crise”, avalia.

Todavia, a cientista ressalta que, por ser um discurso encaminhado para públicos já conhecidos, ainda é cedo para fazer qualquer avaliação sobre alguma consequência positiva ou negativa. “Ele [Ciro] obviamente tem uma narrativa que o favorece porque ela é mais frágil, como se ele jogasse para convertidos, para quem acredita nisso. Ela não é uma narrativa que vai convencer pessoas. Se isso vai gerar dividendos políticos a gente ainda vai ver. Ele tem investido, mas isso não se reverteu, mas é no que ele tem investido”, aposta Monalisa.

Para Dilma Roussef, a cientista avalia que a resposta foi mais uma reação de “tentar estancar e reservar seu legado”. "É o que ela tem tentado fazer nos últimos anos”, afirma. Monalisa lembra das críticas que Lula fez a Ciro em que o petista menciona supostas “sequelas da Covid”, repercussão que acabou sendo negativa para o ex-presidente.

Do ponto de vista do PT no Ceará, segundo Monalisa, os episódios de tensão não devem interferir na política partidária de aliança entre as legendas. “O Camilo vai ter papel relevante na costura de 2022. É uma ponte relevante entre PT e PDT dos Ferreira Gomes. O Camilo virou uma grande liderança estratégica, e ambos (os partidos) precisam do capital político do governador para conseguir resultados positivos. O Ciro acirra ânimos de determinadas lideranças dentro do PT, mas isso tem que ser amortecido dentro dos próprios grupos para acomodar os palanques dos interesses”, avalia.

Ao analisar a reação de Wagner, a professora destaca ser uma atitude “oportunista”. “Ela é muito oportuna, quando, na verdade, se faz no campo onde ele próprio apoia um presidente que faz determinados discursos do mesmo tipo. Ele [Wagner] pode se fortalecer, mas não por isso”, conclui.(O Povo - é parceiro de oxereta.com)