DIA DO PROFESSOR

Dia do Professor: a volta à sala de aula dos que sempre estiveram presentes

Professores relatam histórias de reinvenções ao se adaptarem ao ensino remoto. Também contam sobre a nova adequação com a volta ao ensino presencial ainda em meio a uma pandemia

Arquivo pessoal
Professor Michel Arthaud.

No Dia do Professor, em 15 de outubro, mais do que celebrar a data, reconhecer o trabalho dos profissionais que acompanham mais de uma década da vida de muitas gerações nos traz a reflexão sobre a significância que esse ofício possui na sociedade em que vivemos. Com o início da pandemia de Covid-19 e suas rotinas afetadas, longe das salas de aulas, esses profissionais passaram por uma série de adaptações, reinvenções e, sobretudo, desafios.

Quando alunos, a percepção de que o professor também é um ser humano pode escapar aos nossos olhos. Na ilusão de que eles não possuem falhas, esquecemos que eles também vivenciaram a ansiedade ao abruptamente deixarem seus postos de trabalho para adotarem o home office; sentiram saudade do ambiente comum das salas de aula e temeram pela vida de seus entes queridos. O POVO conversou com três profissionais que relatam as angústias do ensino remoto e da volta para as salas de aula ainda em meio à pandemia.

É o caso da professora de história e sociologia Lia Moita. Trabalhando para a rede estadual de ensino há 10 anos, hoje ela se equilibra entre ambas as redes pública e privada. “Uma professora bem lousa e pincel”, como ela mesma se descreve, Lia passou por dias de angústia ao ter que encarar as ferramentas utilizadas para ministrar aulas remotas.

Há mais de um ano sem poder sair de casa, ou ao menos não da forma como antes, finalmente chegou o dia em que as aulas voltariam a ser presenciais. Apesar da felicidade inicial, o temor ainda continuou. A surpresa ao saber que veria pessoalmente seus alunos novamente foi a primeira reação da professora e diretora Ileane Oliveira. Os 40 dias que duraram mais de um ano chegaram ao fim.

O professor de química Michel Arthaud tem certeza de que nada vai voltar a ser o que era, e que isso não é algo ruim. Voltar para a sala de aula, seu habitat natural, foi como se entrasse em uma cápsula do tempo para 25 anos atrás, início de sua carreira. Com o amor pelo ensino renovado, ele crê em um futuro próspero.

A história da carreira do professor de química Michel Arthaud se confunde com a história de sua família. Seus avós paternos e seus pais eram professores. O pontapé inicial foi dado por um amigo da faculdade que proporcionou a primeira experiência em sala de aula ao jovem Michel de 18 anos.

Hoje, aos 43, ele celebra seus 25 anos de carreira voltando às aulas presenciais, as quais diz sentir muita saudade.

A apreensão ao sair do ambiente físico foi imensa, Michel costumava viajar para outras cidades e até mesmo outros estados para lecionar e, de repente, teve que se contentar em estar presente nesses locais apenas virtualmente.

Durante o período de lockdown, o professor relata que seu principal sentimento era medo. Temia pela educação brasileira já fragilizada, temia a Covid-19 e temia as mudanças em sua profissão. Mas depois do medo, vieram as descobertas.

Uma delas foi o ensino híbrido, que, segundo ele, veio para ficar. “Eles vão conviver juntos com suas vantagens e desvantagens”, diz com animação. A verdade é que Michel é um apaixonado pelo que faz, independente da forma em que o ofício se apresente.

De hérnia na lombar após muitas horas sentada à insegurança diante da câmera de seu computador, apenas o amor pelo ensino permitiu que a professora de história e sociologia Lia Moita não jogasse tudo para o alto.

Como parte do clube dos professores “muito lousa e pincel”, ela conta que sua alfabetização nas ferramentas de reunião on-line aconteceu ao mesmo tempo em que ministrava suas aulas. “Eu sabia que mais cedo ou mais tarde teria que me render à tecnologia, mas eu não sabia que seria de forma tão abrupta”, diz com um sorriso amarelo.

Professora em ambas as redes pública e privada, Lia convivia com abismos sociais diariamente, mas no presencial conseguia lidar bem com isso e auxiliar, na medida do possível, seus alunos. Ao ser obrigada a se restringir ao ensino virtual, ela diz ter se sentido de mãos atadas.

A ansiedade que a dominava quando em aula remota perdurou com a volta do presencial, pois mesmo seguindo as normas de segurança e prevenção contra a Covid-19, ela ainda sente medo de pegar ou passar a doença para os discentes.

Na escola em que Lia leciona, as aulas voltaram com uma quantidade menor de pessoas dentro das salas. Uma das primeiras percepções da professora foi a de que os alunos estavam distantes do conteúdo. Com um tom preocupado, ela afirma que não está sendo fácil e que ainda não consegue medir o prejuízo causado à educação.

Quando anunciaram a volta às aulas presenciais, a professora Ileane Oliveira já estava na escola, ou melhor, nunca saiu de lá. Ela teve que continuar indo para a instituição durante todo o período de lockdown, pois seu dever como diretora da escola em que trabalha a chamava.

Com um otimismo que contagia, Ileane nunca perdeu a esperança de que tudo voltaria ao normal. Esperou pacientemente pela volta das aulas presenciais e hoje pode ouvir novamente os alunos a chamarem de “tia” e tagarelarem pelos corredores da escola.

Mas apesar da esperança, a rotina de angústias e incertezas que preencheu o caminho até o pote de ouro no fim do arco-íris foi dura. Ela compara o início da quarentena com uma mudança de trajeto de um GPS, e o novo percurso era tortuoso.

A graduação em Tecnologias da Educação amenizou um pouco o baque. Como diretora, ela orientou os professores que estavam sob seu comando e fez o possível para que os alunos não ficassem dispersos.

Com a volta das aulas presenciais, mesmo se sentindo pressionada com o peso de muitas vidas sob sua responsabilidade, ela cita a fé como a base de sua força para superar o medo e continuar seguindo em frente sorridente e com otimismo de praxe. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)