RECONHECIMENTO HISTÓRICO

Único campo de concentração preservado no Ceará é tombado em Senador Pompeu

O campo de concentração "Patu", em Senador Pompeu, é o único conjunto arquitetônico preservado. Pesquisador afirma que isso foi importante para o reconhecimento histórico do local, que foi tombado no sábado, 20

Divulgação
Um dos 12 casarões do campo de concentração(

Doze casarões, três casas de pólvora, um cemitério e uma barragem compõem o conjunto arquitetônico do campo de concentração de Senador Pompeu, o Patu, tombado neste sábado, 20, após anos de luta pelo reconhecimento. O local foi o único campo do Ceará não apagado com o tempo, graças à alvenaria em sua construção, que garantiu a memória de um dos episódios pouco falado da história do Brasil.

Intensificados a partir de 1915, com a “seca do 1915”, os campos de concentração no Ceará foram, segundo Valdecy Alves, advogado, pesquisador e ativista social, “tecnologias” utilizadas para controlar um contingente de “flagelados” e garantir, através disso, mão de obra barata para construções nas cidades e manutenção da “ordem pública”. No Ceará, existiram oito campos de concentração, sendo sete deles durante a seca de 1932. Em Fortaleza, o local onde hoje está o bairro São Gerardo abrigou, 1915, por exemplo, o primeiro campo do Ceará.

A história, entretanto, começa em 1877, quando um ciclo intenso de estiagem motivou o êxodo de retirantes do interior para Fortaleza. Esses deslocamentos e a chegada dessa população nas cidades, entretanto, eram permeados por extrema pobreza e negligências. “Existiam muitas pessoas em um mesmo local, a alimentação era fraca, pois não continha os nutrientes necessários. Os organismos ficavam frágeis e as pessoas começavam a morrer”, descreve Valdecy.

Foi nesse cenário, em Senador Pompeu, que mais de 20 mil pessoas foram aprisionadas no campo de “Patu”. Foi também lá onde mais “flagelados” morreram em toda a história de campos de concentração no Ceará (entre 4 e 10 mil) e, também fica lá, o único espaço que resistiu ao tempo e ao “apagamento do governo”, como coloca Alves. “Cometeram o “erro” de colocar casas de taipa. Como é de alvenaria, o campo ficou”.

Para o pesquisador, a importância do tombamento reflete no futuro, mas também é uma dívida com o passado. O estado, com o tombamento, reconhece a existência de campos de concentração no Ceará, onde direitos humanos foram violados. A partir disso, comenta Valdecy, a cidade vai fazer um parque para visitação onde as pessoas terão a oportunidade de conhecer a história do lugar . “Olhar pra história para compreender o presente e projetar um futuro”, finaliza o advogado. (O Povo - é parceiro de oxereta.com)